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Rafaella Maiello

Psicanálise online funciona? Parte 4: Os medos do online

Parte 4: Os medos do online Agora vamos olhar o lado “não tão bom” do online. Ao mesmo tempo em que pode ser um alívio pensar que, apesar dos pesares, podemos manter as sessões, também pode ser um tormento lidar com essa configuração diferente do relacionamento pela tela, ou em alguns casos, apenas pela voz. Quando é o caso do paciente estar em casa acompanhado de familiares, o medo pode ser ainda maior, de que as pessoas em casa possam escutar, interromper, ou ainda em alguns casos, que os familiares finalmente saibam que o paciente faz análise. Nesses casos, orientações são importantes para amenizar um pouco esse medo, como por exemplo, usar sempre o fone de ouvido para se comunicar, deste modo o som não “vaza” para o ambiente, além disso, a porta do cômodo deve estar fechada. No caso de espaços abertos e/ou públicos, se manter afastado das pessoas, utilizando o fone de ouvido. Em casa com os familiares, ainda é possível pedir para que a outra pessoa também use um fone de ouvido ou assistir algum vídeo no celular, na televisão, algo que a mantenha ocupada enquanto o paciente faz sua sessão. Todas essas orientações são válidas para ajudar a amenizar os medos, mas ainda assim, o medo pode conter um outro lado mais aterrorizador, em psicanálise chamamos de um lado mais persecutório, de modo que, apesar de seguir todas as orientações exemplificadas acima, o paciente se mantém hipervigilante, com uma sensação de que é observado por alguém, esse alguém portanto, se torna invasivo e ameaçador. Nesses casos, o online de início pode ser desafiador, algumas pessoas conseguem através do bom vínculo com o analista, superar estas barreiras e seguir adiante mais confiantes e seguros quanto aos seus “pensamentos”, diminuindo o medo e a sensação de ameaça e invasão. Em outros casos, porém, os pacientes não conseguem vivenciar e superar este medo e acabam por não dar continuidade ao método online ou encerram sua análise naquele momento. Este é o texto que encerra a série “Psicanálise online, funciona?”. Por fim, gostaria de deixar minhas últimas elaborações. Como método psicanalítico, independente da distância (online ou presencial) e do ponto de partida (começar no presencial e migrar para o online, ou vice-versa), as características principais da psicanálise se mantém também no online, sendo elas: a disponibilidade, a confidencialidade e a escuta por parte do psicanalista. Uma vez que exista condições no paciente de estabelecer um vínculo de boa qualidade, a dupla pode se manter unida e trabalhando, em análise. Afinal, os vínculos que estabelecemos com bons objetos, se mantêm integrados e preservados dentro de nós, desta forma eles operam e se mantêm, mesmo à distância.

Psicanálise online funciona? Parte 2: Um pouco mais sobre os vínculos

Parte 2: Um pouco mais sobre os vínculos … Dando continuidade ao texto anterior, gostaria de introduzir melhor o tema dos vínculos na psicanálise. Podemos considerar o vínculo como a capacidade que cada um de nós possui de nos conectarmos a outra pessoa, inclusive ao psicanalista. A outra pessoa com a qual nos conectamos traz consigo aspectos e características com as quais nos identificamos. A grande questão é, muitas destas características somos nós que enxergamos no outro, criando assim, uma imagem muito particular e própria de quem o outro é. A partir dessa imagem da pessoa vamos nos relacionando e criando os vínculos, e assim, criamos internamente as representações daquela pessoa, aquilo que achamos dela, a maneira como enxergamos a pessoa e principalmente, como reagimos diante dessa imagem que criamos. A relação com o psicanalista, portanto, não é diferente disso. As imagens que criamos do outro interfere bastante na qualidade do vínculo que estabelecemos com elas, sendo assim, há imagens que favorecem um bom vínculo, e há imagens que não favorecem. Vou diferenciar mais um pouco. Quando criamos uma imagem do outro onde prevalecem boas características, bons aspectos, isso inspira bons vínculos onde prevalece a confiança, a tranquilidade e a integração (a pessoa pode não ser perfeita, tem seus defeitos, mas ainda assim, é boa). Quando o paciente cria uma boa imagem do seu psicanalista, por exemplo, diante das diversas mudanças (online, presencial, atrasos, faltas, etc) ele se mantém tranquilo e seguro de que aquilo é passageiro, e a relação se mantém preservada e boa. Nesses casos, o paciente se mostra mais disponível para a sessão online, ao mesmo tempo que o psicanalista pode parecer mais distante, pois não compartilham mais o mesmo ambiente do consultório, ele também se mantém próximo, pois a tela aproxima e o mantém presente. A dupla, portanto, se mantém num clima de curiosidade, interesse e descobertas. Essa proximidade e intimidade é vivida como boa, o que propicia um ambiente criativo e de boa qualidade para a continuação do trabalho.

Psicanálise online funciona? Parte 1: Conexão e vínculo

Parte 1: Conexão e vínculo O método da psicanálise online já era utilizado por psicanalistas há algum tempo, porém, com muitas ressalvas diante daquele mais conhecido e tradicional do consultório presencial. Pelo cenário da pandemia do COVID-19, nos deparamos com a imposição deste método como o único possível. Quando se trata de restrição (“presencial não pode mais”) e imposição (“agora é só o online”), é de se esperar que surjam resistências e estranhamentos, não só por parte do paciente como também por parte do psicanalista. De qualquer forma, continua sendo tarefa do psicanalista conduzir da melhor maneira essas interferências com seus pacientes. Não me parece que estejamos caminhando para uma substituição de um método pelo outro, de modo que o presencial não seja mais necessário, mas devemos ponderar os ganhos e perdas que cada um deles nos oferece, tanto condições para o psicanalista quanto para seus pacientes. Afinal, não existe “voltar àquela realidade”, vai se constituir uma nova ao final da pandemia, cabe a nós nos adaptarmos. O que quero dizer é que o online também funciona. Gostaria de justificar o uso do método online como uma possibilidade de trabalho levando em consideração principalmente o critério da conexão, não a conexão do online (internet) ou a conexão presencial (consultório), mas a conexão das relações, em psicanálise, o vínculo. A qualidade deste vínculo desenvolvida pela dupla, psicanalista e paciente, é o elemento essencial para manter o método da psicanálise possível no online. Independentemente de já existir uma relação prévia de consultório que passou a ser online, ou uma nova relação que iniciou no online, este vínculo, mais do que conexão de internet ou de presença, ultrapassa barreiras e se faz presente no mundo interno, dentro de cada um de nós. A qualidade do vínculo é primordial para que a dupla continue o trabalho e possa enfrentar os desafios das mudanças que estamos enfrentando nesse cenário da pandemia do COVID-19, mas que já existiam em diferentes níveis na relação da dupla, psicanalista e paciente. Por fim, cabe ressaltar que os principais instrumentos para um processo de psicanálise também são mantidos no online, destacando o aspecto da frequência das sessões, a disponibilidade do psicanalista, a confidencialidade e sua escuta. Uma vez que esses aspectos continuam garantidos, é preciso contar com a disponibilidade do paciente para se vincular ao seu psicanalista (novo ou antigo). Nota: as elaborações continuam, no próximo texto, vou aprofundar um pouco sobre os vínculos.