Quanto rende uma unha?

Escrevi há pouco tempo sobre minha percepção das minhas unhas. Na ocasião, ficou muito claro para mim a relação narcísica que se estabelecia ali neste olhar, as unhas bem cuidadas por mim e das quais me orgulhava.O que foi muito interessante é que, passado esse momento contemplativo, egóico e feliz comigo mesma, acabei me inscrevendo em uma nova atividade, aprender a tocar um instrumento musical. Animada com a ideia, logo na primeira aula, o professor avaliou minha postura e se eu tinha condições de aprender este instrumento, logo, ele nota as tais unhas. Bem cuidadas, coloridas e longas – para além da ponta dos dedos.Então ele comenta:“Eu vi que você tem belas unhas, mas para tocar esse instrumento deve cortá-las rente aos dedos, você precisa da ponta dos dedos livre para segurar as cordas. Você está disposta a fazer isso? O quão vaidosa você é com essas unhas?”De prontidão e para minha surpresa respondo:“Sim, estou disposta, melhor ter as unhas curtas na carne e ter um novo conhecimento de tocar música do que exibir as unhas como estão mas sem poder tocar”Faço uma pausa reflexiva quando me dou conta do que disse a ele naquele momento, olhando para as unhas fico um pouco triste, lembro justamente do texto em que as enaltecia, sigo:“Mas posso continuar com lindas mãos e unhas coloridas, embora curtas, não é?”Dou uma risada para aliviar o clima e convencer-me que era uma boa solução, o professor responde:“Claro que sim! Ainda terá mãos delicadas e femininas”Achei muito importante ter notado o que pareceu um desapego tão fácil diante de algo que parecia recentemente conquistado, uma auto-estima enaltecida através das unhas. Talvez seja essa a questão, estamos sempre nesse movimento de conquistar e re-conquistar, perder e adquirir. Eu perdi as unhas longas, mas mantive o cuidado com elas e ganhei a possibilidade de tocar um instrumento. Essa experiência me faz pensar no processo de análise, ao menos no meu processo em curso, como fui aos poucos me “desapegando” de detalhes que me caracterizavam e pude adquirir novos, mais contemporâneos. Com essa mesma facilidade que me desfiz das unhas longas, também me desfiz de furos na orelha e os brincos que adornavam e um piercing no nariz. Assim, com naturalidade. De repente, me incomodaram a tal ponto de querer me desfazer deles e não mais mantê-los, antes não me via sem estes adereços, faziam parte de mim, se os perdesse, estaria descaracterizada por assim dizer. Mas agora penso em adquirir novos adereços, novas habilidades com sorte. Veremos
Um novo olhar para as minhas unhas

Não sei bem desde quando faço minhas unhas. Mais recentemente, faço semanalmente. Talvez nos últimos 2 anos, algo assim. Acho bonito tê-las bem feitas, pintadas, me envaidece. Acho que quando cuido das minhas unhas, cuido de mim mesma, isso já tinha claro. Afinal, muitas vezes, é difícil encontrar o tempo necessário para esse cuidado, ainda assim, vivo dizendo “preciso fazer minhas unhas”. Desta vez fiz o mesmo de sempre mas pensei novas coisas desse processo de Manicure. Fiz as unhas no meu aniversário, caiu numa segunda-feira, e por mais que eu tenha comemorado antes da data e depois também, ainda assim, me vi no dia em si “apenas” fazendo a unha como sempre, numa segunda-feira feira de aulas e atendimentos, como sempre. Mas aquilo foi tão bom, tão importante, “as mesmas coisas” no lugar, que isso ganhou uma dimensão nova naquele momento. Quando me refiro a fazer a unha, inclui o processo de tirar o esmalte antigo, lixar as unhas, tirar uma pele/cutícula ou outra, e depois colocar uma nova cor. Mas nesse dia do meu aniversário, justamente tirei o esmalte antigo e parecia admirar minha unha ao natural. Gostei do formato dela, do tamanho dela e como eram bonitas para mim mesmo sem tinta alguma. Me dei conta de que minhas unhas vinham ficando fortes, mais resistentes e cresciam um tanto para além da ponta dos dedos, elas vão além da carne por assim dizer, ultrapassam. Com todos esses olhares que constatam e as palavras que me vinham em pensamento, admirei meu cuidado com as unhas. Pensei “puxa, mas essas unhas estão assim viçosas pois eu cuido semanalmente delas”. Como eu disse, já tinha associado o cuidado às unhas como um cuidado à mim mesma, ainda que fosse do tipo vaidade como se isso não fosse o suficiente para ter valor, mas desta vez, atribui outro valor, não é só uma vaidade “da moda” (que venho entendendo também ter seu valor, sentir-se dentro da moda e “ter sua moda”), mas era um cuidado com meu feminino, ser mulher e ter unhas bem feitas e bem cuidadas por mim mesma. Fiquei feliz com esse novo olhar possível, com mais essa camada de significado para algo que já vinha tão “normatizado” dentro de uma rotina.
Quanto tempo dura o processo de psicanálise

Falar sobre a duração de tempo de qualquer coisa me parece sempre muito delicado e arriscado por seu caráter amplo de discussões, possibilidades e, portanto, elaborações mil. Mas neste texto, gostaria de frisar uma pergunta recorrente com a qual me deparo de pacientes que buscam o processo de análise, “quanto tempo dura?”, ou “quanto tempo eu preciso de análise para me livrar disto que me incomoda?”. Freud já dizia que “a pergunta relativa à duração de um tratamento é quase irrespondível.” De início, muitos pacientes já pedem uma resposta pronta para o tempo de duração e seu término, mas é preciso pensar este tempo junto dele, não antes, nem depois. Pensar este tempo não significa estabelecer um prazo pré-definido, mas vivê-lo junto. Esta seria, inclusive, uma boa forma de iniciar o próprio processo de análise que o paciente veio buscar: viver na dupla (paciente e analista) o “não saber” e diante disso, poder criar certa capacidade de tolerar este tempo não definido e essa condição de “não saber”. Nesse sentido, acredito que o processo de análise se trata de uma aposta, do paciente para com o analista e vice-versa. O que quero dizer é que, afinal, quem delimita este tempo é quem veio buscar por ele, o próprio paciente. O analista faz aceitar ao paciente e suportar com ele o que a princípio pode ser insuportável, disponibilizando inclusive, seu tempo, sua agenda para isso. Sendo assim, o término do processo de análise por parte do paciente não deve ser encarado por seu caráter qualitativo (certo ou errado, pouco ou muito), mas diz das condições dele naquele momento, seguindo adiante ou não, e em que condições está se seguindo. Os motivos que levam os pacientes a encerrarem seus processos de análise são dos mais diversos, desde se depararem com suas resistências muito fortes (ou evidentes) de modo que não é possível “ultrapassá-las” nem ao menos dar um sentido à elas; até sentirem-se menos resistentes do que já foram antes, considerando estarem mais preparados para encarar certas questões ou até mesmo lidar com elas, e, por este motivo, seu processo acabou naquele momento. É claro que, por parte do analista, já é sabido e esperado que a queixa inicial do paciente muda no decorrer do tempo, ele é levado a outras questões até então não consideradas, por isso, talvez se tenha uma ideia de que estas “aberturas” de novas queixas, aprofundamentos e mudanças são infindáveis, elas não cessam, se renovam. Mas, ainda assim, cabe ao paciente seguir adiante nessa jornada, se aprofundando e se permitindo mudar, ou interromper. Não tenho intenção de trazer neste caso muitas considerações teóricas para embasar minha elaboração sobre a questão do tempo, mas gostaria de sinalizar algo que me parece importante, que seria um olhar sobre o não controle deste tempo, mas a capacidade de se viver na dupla essa aposta de que, independente do tempo, algo de positivo pode se estabelecer enquanto estiverem trabalhando juntos. Portanto, não cabe aqui se valer da questão quantitativa, mas quem sabe considerar o que pode ser pensado ou experimentado por aquela dupla durante aquele tempo de análise, a começar pelo ato de coragem por parte do paciente em buscar a análise e a confiança que pode se estabelecer na relação. Por ora, pode-se dizer que é pelo vínculo que se estabelece que o processo de análise vai se seguindo ao longo do tempo, tendo seu fim em algum momento.
Uma nova batalha

E finalmente, o que estava parado, caminhou. Não sem esforço, não sem resistência, com procrastinação, com preguiça e com dúvida. Duvidei que terminaria esse quadro, o comprei como forma de presentear meu pai. Ele escolheu a imagem e eu ganhei o passa tempo da pintura. Isso sempre funcionou para mim, a pintura, desde muito pequena eu presenteava familiares com “minhas artes”. Mas travei nesta, nesta pintura e neste momento, empaquei. Em retrospectiva me dei conta de que estive empacada nesse processo que parecia não ter fim por cerca de 2 anos. Parece que a coisa andou quando me senti exausta, senti que a vida exigia muito de mim, mais do que achei que poderia dar, terminar de pintar um presente para o meu pai, naquele momento, era demais, não dava conta. A arte, esse passatempo que sempre me acalmou, me alegrou, como uma “criança feliz” se misturou com as exigências da vida de agora, adulta por assim dizer, em que não mais meus pais cuidam de mim, mas eu sim, cuido deles (e de mim mesma, inclusive). Afinal, em resumo, eu estava resistindo, não queria crescer. Por isso estava tão difícil entregar este presente, esta pintura, não conseguia finalizar. Me dar conta de tudo isso me travou, que medo deixar de ser filha! Inclusive uma sinusite severa se instalou nesse momento. Fiquei inflamada por esse sentimento de desamparo de ser “gente grande”. Mas afinal, era eu mesma que me exigia demais do meu lado “filha pequena”, como se meu lado “gente grande”, identificado com meu pai dentro de mim, estivesse cobrando demais a “filha pequena”, exigindo que terminasse enquanto eu mesma resistia. Entendam, em nenhum momento foi meu pai, fora de mim, que me cobrava coisa alguma, nem mesmo a pintura de agora. Era eu comigo mesma a partir dele dentro de mim, criando essa batalha difícil de superar, exaustiva. Isso me tornava na minha fantasia uma péssima filha e uma péssima adulta. Em meio à esta jornada, busquei alguma paz – ainda que com braveza – insisti comigo mesma que teria que terminar a pintura. A vida sendo vida, encontrei vários obstáculos para concluir. O quadro estava pela metade por assim dizer, as tintas que ainda deveriam ser usadas, secaram. Praticamente todas elas! Eu tive que lutar com as tintas, busquei formas de recupera-las na internet mas, por incrível que pareça, cada pigmento de cor se comportava de uma forma e a solução que parecia resolver todos os meus problemas, servia apenas para cada uma delas, individualmente. Tive que pensar em soluções para cada espaço faltante do desenho, inventei cores com um estoque de outras cores antigas, recuperei algumas com água, outras com soro fisiológico, outras com água quente e outras ainda ficaram aguadas demais mudando um pouco a característica da pincelada. Afinal, consegui. Terminei. Mas o sentimento era de que eu havia recuperado, recuperado minhas forças, recuperado meu ego, recuperei minha criatividade e minha força de vida …. uffa, que bom que a arte salva! Claro que não acaba por aqui, a jornada certamente continua, é uma luta constante sair desse lugar de filho(a), criança pequena, rumo à vida de si mesmo, “adulta” mas, tolerante com as fragilidades e exigências de nós pequenos-adultos.
Começando 2024: consultoria de imagem pessoal

Comecei 2024 fechando uma consultoria de imagem, algo que sempre tive interesse em fazer mas também lutava contra, me parecia muito supérfluo e comercial. Mas a minha busca era por uma ajuda, um novo olhar para as minhas roupas, principalmente aquelas encostadas no armário que eu julgava não terem mais uso – embora gostasse muito delas, por isso não me desfiz, apenas encostei. Também me incomodava querer mais roupas do que já tinha, esse volume de peças me parecia excessivo, parecia que não teria fim nunca. Estava cansada de ser seduzida e induzida pelo consumismo das redes sociais, internet e afins. Em algum lugar dentro de mim, não me parecia o melhor caminho, não mais. Pensei – chega disso, preciso olhar primeiro para o que eu tenho para então, se for necessário, olhar para fora em busca daquilo que ainda preciso. Eis que obtive minha consultoria com uma profissional muito sensível – e claro, isso fez toda a diferença. Pude entender que ela também faz uma análise de perfil, captura parte da personalidade da pessoa através das roupas, sim, essa é a especialidade dela. A minha, é pensar sobre essa experiência mais profunda e fazer um registro-reflexivo. Posso dizer que foi muito acertada minha escolha de ter este outro olhar sobre mim através da moda, das roupas, um olhar muito diferente da minha análise, mas ainda assim, em consonância comigo mesma. Eu pude notar que transmito muito mais de quem eu sou do que eu podia imaginar, como intuía, as roupas que estavam no meu armário já refletiam o que eu gostaria de “mostrar” e diziam por si só sobre quem eu sou. Com essa ajuda descobri que é muito mais proveitoso fazer nossas compras dentro da nossa casa, dentro do nosso próprio armário. Como é importante revisitar nossas “coisas”, nossas peças, nossos “pedacinhos” e descobrir que tudo está ali, descobri que tudo o que eu preciso já estava ali à minha disposição. Claro, sempre terei a opção de peças a mais, mas por ora, o que tenho está suficiente. Precisei de um novo olhar para isso, assim pude transformar tudo aquilo que estava parado em “novas coisas”, novas combinações, novos “looks”, foi um ajuste de olhar, e com isso uma autoconfiança de que sou capaz de me vestir com aquilo que me serve e me valoriza, afinal, faço boas escolhas. Vejam, novamente, não foi apenas uma consultoria de imagem que lidou com roupas de acordo com um parâmetro de moda externo e alheio à mim, foi uma outra forma de experimentar a mim mesma, novas versões, novos arranjos e com sorte, me sentir mais confiante sobre quem eu sou. Uma análise não substitui uma consultoria de imagem e vice-versa, mas tudo isto junto e mais um pouco, orquestra uma sinfonia/sintonia importante sobre sentir-se EU, um EU mais coeso com o qual me identifico, através do qual me apresento e sou reconhecida.
Encerrando 2023: “Pai, você pode cuidar das minhas plantas?”

Tudo começou com um pedido simples “pai, você pode cuidar das minhas plantas?”. Poderia parecer um cuidado exagerado da minha parte com as plantas, mas para mim, era importante que elas se mantivessem vivas e saudáveis durante o meu recesso de festas de final de ano. Toda a preocupação com a logística de cuidado me fez atestar de que me tornei uma pessoa que se apega às plantas – pensei comigo mesma de forma divertida “vou levar as plantas para passar férias na casa do meu pai”. Por que será que me tornei essa pessoa que se apega às plantas? De bate pronto, penso que é reconfortante saber que algo vivo que você dedica tempo e atenção cresce, fica bonita, mais ainda, te dá um tempero para colocar na comida, um fruto, uma flor ou apenas uma folhagem bonita que embeleza a casa. Nesse ponto já fica claro para mim que comecei essa história pensando “é só uma planta” e agora caminho para algo que vai muito além das plantas. O ato de cuidar, ter zelo, poder estar atenta aos detalhes da rega de cada uma, da terra, de possíveis pragas que acometem as plantas, tudo isso só é possível com um trabalho sensível e afetuoso, ao menos é assim que eu entendo. Por isso, quando peço para meu pai cuidar das plantas, mesmo que eu não tenha feito esse pedido com tudo isso já pensado, no fundo da minha mente, eu sabia que meu pai entenderia meu pedido neste lugar: cuidar de algo que é valioso para mim e que precisa de atenção, da atenção dele na minha ausência. E claro, isto mantém também a nossa conexão nesse período, é uma “boa desculpa” para me contar como ele está, para eu dizer como estou e no meio disso, contar das plantas. Quando meu pai aceita esse pedido e me envia o registro de foto como quem diz “já estou cuidando bem delas”, eu entendo que meu pai cuida também de mim, de uma parte minha, e isso me remete às memórias com ele. Como foi importante para mim ter quem valorizasse aquilo que eu considerava importante, hoje são as plantas, mas já foram várias outras coisas. Este texto não foi de caso pensado e não tem pretensão de ser uma reflexão teórico clínica – não diretamente, ainda que possa fertilizar futuros escritos. No fim das contas, é um texto espontâneo e em sintonia com o meu encerramento de ano em que considero ter cuidado muito bem daquilo que valorizo e daquilo que considero importante. Para além disso, é um texto que me remete à terra, ao solo de onde eu vim, de onde cresci e me desenvolvi e como pude crescer e ramificar por aí, plantando novos vasos e aprendendo novas formas de cuidados, e muitas derivam deste solo. Acho que este também pode ser o sentido da análise para mim, trabalhar um solo, adubar a vida e entender as relações com as quais crescemos e aprendemos as primeiras formas de cuidado na vida. Estou registrando aqui e dividindo com vocês meu “insight”, vejam só, como um mero pedido de cuidar das plantas pode se tornar um fio condutor de memória que me leva aos meus primeiros cuidados, a minha trajetória, ao meu encerramento de ano, ao meu processo de análise e assim por diante. Encerro o ano feliz por poder perceber tudo isto e ver o cuidado nas pequenas coisas.
Apresento-lhes minha caixa de crochê

Busco escrever este texto para organizar e registrar para mim (e para os leitores) os vários fiapos que me trouxeram até o presente momento da formação em Psicanálise. Fui inspirada pela palavra “fiapo” em mais um dos seminários de Freud. Ouvi esta palavra como uma forma poética de aludir ao aparelho psíquico de memória do qual Freud nos fala, sendo este um dos seus conceitos centrais que será desenvolvido ao longo de sua obra. O aparelho psíquico de memória é um conceito inaugural, aparece em seus primeiros manuscritos, inclusive no famoso “O projeto” (1895). Estes escritos iniciais guardam “uma riqueza material, em contrapartida uma pobreza conceitual”, frase que ouvi também neste seminário de Freud. Discordo neste momento. Não consigo enxergar pobreza por não haver uma conceituação teórica consistente, afinal, sendo inaugural, não podemos esperar algo tão consistente, mas podemos admirar a beleza do que depois vai ganhar corpo, forma e robustez em seus futuros escritos (igualmente ricos, não mais inaugurais). Me encanta pensar na riqueza inaugural de quem começa a cogitar transformar seus estudos em algo aproveitável, consistente e transmissível. Humildemente, me identifico com esse lugar, creio que me encontro neste momento de “cogitações” e é a partir dele que retomo meus fiapos. Quando inaugurei meu consultório (espaço físico) tive o cuidado de escolher uma imagem que representasse uma “marca” e com isso construir meu site. Investi tempo e energia criativa e psíquica nessa procura que não demorou muito para se estabelecer em uma imagem principal que ficava ao fundo, esta imagem retratava um trabalho de fio de lã, um trançado que remete a um crochê ou tricô. Além desta imagem de fundo, buscava por outras que ilustrassem tecidos e as utilizava para outras postagens, era preciso perceber pela imagem o trabalho da trama desse tecido – as variações são enormes (jeans, linho, juta, lã, seda …). Não sabia muito bem, na época, o porquê desta escolha, mas estava de bom tamanho para mim. A ideia principal era de que havia uma trama importante a ser trabalhada em mim mesma nesta “abertura de consultório” – inaugurando o espaço físico do consultório também estava inaugurando “meu espaço psíquico” para receber pacientes, para receber os estudos de psicanálise, para estar em análise e para a vida em Instituição de Psicanálise. A associação que fiz foi de fiapos de memória que constituem nosso aparelho psíquico porém, não como uma memória de computador (terabyte (TB)) e sim como uma memória contínua e viva que se liga/se costura de fio em fio e se atualiza nas nossas vidas, constituindo as mais diversas tramas. Assim, fiz a junção artesanal, manual e gradativa dos fios da minha intenção inicial de trabalho de consultório com os fios da minha história que passam pelo trabalho do crochê principalmente – atividade manual e criativa que retomei novamente neste período de formação em psicanálise, inclusive. Para mim, o crochê é o espaço criativo de transformação manual dos fios sendo estes de infinitas texturas, gramaturas e cores. Me lembrei dos trabalhos de crochê que não terminei quando criança (em especial do mais traumático que não foi concluído porque foi jogado fora em meio à bagunça); me lembrei do cordão imenso que fiz quando aprendi os primeiros pontos de crochê (na época aquilo foi mágico para mim, os pontos unidos não se soltavam uns dos outros e só com uma agulha, com paciência e persistência eu podia faze-lo até me cansar); me lembrei até dos barbantes que enrolava em latas de alumínio de refrigerante e depois colava com cola branca e disto surgia um porta-lápis (era uma transformação criativa que fazia caber outra tão especial quanto, meus lápis-de-cor); me lembrei também dos fios de barbante que colei em tela junto de outras miçangas e lantejoulas para formar uma arte abstrata – ali eu uni todos os elementos de que mais gostava, o resultado foi rico em textura, materiais e cores. Bem, se continuar a puxar esse fio das cores e das “artes” que fiz, posso ir muito longe – pensando bem, devo ter ido longe o suficiente para chegar até aqui. Cá estou mostrando-lhes e entrando em contato com minha caixa de crochê, onde os fiapos da minha vida são instrumentos que me ajudam a costurar as teorias que tomo contato, e assim, as transformo artisticamente também. Minha caixa de crochê possui vários novelos de linhas e lãs, alguns restos de trabalhos já concluídos. Quando abro a caixa, me inspiro em usar uma destas sobras, a princípio, na intenção de esgotá-la, dar um fim a este resto. Porém, não é isso que acontece, quando começo a trabalhar o resto de linha me dou conta de que preciso comprar um novo novelo para concluir um novo trabalho que surgiu ali. Assim tem sido meu contato com os textos de psicanálise, quando penso em terminá-los para esta ou aquela aula e/ou discussão – nesse sentido, dar um “fim” – os textos, assim como as linhas, me levam para novos lugares e novos trabalhos, novas e infindáveis costuras. Assim também tenho entendido o processo de uma análise, quando pensamos ter dado “fim” a um assunto, uma lembrança ou um ponto, rapidamente ele pode se transformar em um novo trabalho elaborativo, evocativo de memórias e novas costuras. Mas para isso, precisamos de criatividade (na dupla) e para exercer a criatividade, creio que precisamos de liberdade para pensar, para lembrar, para costurar e descosturar e tantas outras coisas que compõem esta arte da psicanálise.
Um pouco sobre felicidade

O modelo de felicidade em psicanálise, partindo de Freud, tratava-se de um modelo de adaptação. Poderíamos pensar que a felicidade, portanto, dependeria do grau de adaptabilidade das condições internas do sujeito às externas. Porém, autores mais contemporâneos, como Bion, entenderam que a busca pela felicidade não se efetiva pela adaptação e sim pelo desenvolvimento, sendo este um processo interno que necessita da interação constante com pessoas e interesses no mundo externo que evoquem as emoções das relações íntimas (Meltzer) Bion se propôs a compreender as emoções e o pensamento. Em sua teoria, o significado das emoções está no cerne da questão dos processos do pensar, e pensar sobre as emoções é essencial para o desenvolvimento da personalidade. Bion, portanto, pensou as emoções como elo de conexão das relações íntimas humanas de uma forma geral, entre os indivíduos e dos indivíduos cada qual com seu mundo. Assim sendo, o que caracteriza essas relações humanas é que estas são ativadas por intenções e emoções apaixonadas. Mas aqui, cabe uma ressalva, ao falar de intenções e emoções apaixonadas, falamos destas que possuem qualidade, não àquelas que poderiam remeter ao modelo adaptativo (ao exemplo daquilo que é esperado que seja). Até então, em psicanálise, as emoções constituintes e conflitantes, ou melhor, em constante tensão eram a pulsão de morte e pulsão de vida, como nomeou Freud, e depois Klein atualiza como a tensão entre amor e ódio (depois inveja). Bion propõe que nesta dialética emocionada humana, a tensão seria entre emoção e anti-emoção, sendo assim: amor e anti-amor; ódio e anti-ódio; e também conhecimento e anti-conhecimento. Para compreender melhor, “anti-amor” em oposição ao amor seria o puritanismo, uma privação ou impedimento da alegria e prazer nas relações íntimas; “anti-ódio” em oposição ao ódio seria a hipocrisia, nesse caso como exemplo seria odiar aquilo que não se sabe, quase um ódio alheio que na verdade se confunde com uma dificuldade de amar o oposto (odiar tanto o que no fundo se ama, sem poder amar); “anti-conhecimento” em oposição ao conhecimento seria uma espécie de aversão à cultura e ao conhecimento novo, como uma resistência em sair do conhecido rumo ao novo-seja-lá-o-que-for. A partir deste pensamento de Bion e da sua teoria, creio que tenha ficado mais claro para quem lê, como ficou para mim, de que o terreno dos conflitos se amplia e mais do que isso, se atualiza, sendo esta dialética de tensão entre as emoções e as anti-emoções algo muito presente nos dias de hoje. A cada emoção, uma anti-emoção, um prato cheio de conflitos. Por fim, a forma como pensamos sobre estas emoções e seus conflitos é o que propicia um tanto de desenvolvimento e um tanto de felicidade.
Por que a psicanálise trabalha com um maior número de sessões?

Uma maior periodicidade de sessões é um dos elementos que compõem, por assim dizer, a psicanálise clássica, sendo os principais elementos: o paciente deitado no divã; o analista sentado atrás do divã (sem contato visual com o paciente); a fala livre do paciente (falar o que lhe vem à mente); a duração da sessão de 45 a 50 minutos; a frequência das sessões de 3 a 5 vezes na semana. Essa configuração de setting (espaço criado entre analista-paciente que inclui acordos como faltas, valores etc) naturalmente sofreu modificações até os dias de hoje. Apesar das modificações, eu diria até adaptações, o método psicanalítico se mantém eficaz, não dependendo destes elementos pré-definidos do setting clássico (não todos eles), mas sem abrir mão da capacidade de escuta profissional, elaborações e intervenções/interpretações. Estabelecer uma alta frequência de início foi necessário como uma forma de acessar o inconsciente. Freud e os psicanalistas da época, seguiam este método acreditando que só desta forma garantiriam que a fala do paciente pudesse ultrapassar as barreiras do consciente, permitindo acesso aos aspectos mais primitivos e inconscientes da mente. O método se torna pouco usual diante da realidade social atual, o estilo de vida das pessoas e o perfil daqueles que buscam pela psicanálise, sua disponibilidade financeira, dentre outros motivos, fazem com que a psicanálise, imersa na cultura, seja convidada a revisitar e adaptar seus métodos para que se mantenha viva e atuante, sem perder sua eficácia e ética. Hoje ainda é possível trabalhar com uma frequência maior de sessões, sendo uma escolha do analista em acordo com o paciente. Apesar da maioria das pessoas disponibilizarem apenas 1 vez na semana para realizar a sessão, aqueles que se disponibilizam para mais de 1 sessão, abrem espaço para acessar falas, percepções, pensamentos e ideias mais profundas que favorecem o desenrolar do trabalho psicanalítico. Independente da frequência, para um bom trabalho psicanalítico continua essencial a capacidade da dupla estabelecer um vínculo de confiança e abertura suficiente para acessar os conteúdos inconscientes. Um exemplo atual e bastante comum, são os pacientes que trazem queixas relacionadas ao trabalho, aos relacionamentos, à família etc. De início, nas primeiras sessões, prevalece na fala do paciente o relato desses fatos e acontecimentos, mas também aparecem aspectos e lembranças da sua história que corroboram para a queixa. Nesse momento, podemos considerar que os conteúdos mais conscientes já estão ali, na ponta da língua, esperando ansiosamente por serem ditos. Num segundo momento, aos poucos, é possível fazer uma outra leitura das mesmas falas, trazer outras percepções, questionamentos, etc. Para ir além da fala mais consciente, uma maior frequência pode ajudar, tanto o analista quanto o paciente, podemos imaginar, de forma mais sistemática e ilustrativa que, em uma mesma semana, a primeira sessão contempla mais conteúdos “conscientes”, são os relatos do que aconteceu desde a última sessão naquela semana, ou o desenrolar das queixas iniciais; já na segunda sessão da mesma semana, haveria espaço para mais conteúdos “inconscientes”, mais propício à isso, uma vez que na primeira sessão já se “esvaziou” um pouco das queixas e quem sabe, neste segundo momento, possa se debruçar sobre ela e se pôr a pensar. Essa é só uma forma de tentar explicar e quem sabe visualizar uma dinâmica que se estabelece entre o funcionamento da fala/mente diante de uma frequência maior, 2 vezes na semana, mais atual e menos clássica, não sendo 4 ou 5 vezes. Os casos que necessitam de mais sessões, a partir de 3 na semana, são consideradas situações (em sua maioria) de uma necessidade maior de acolhimento, de contenção ou até mesmo do próprio interesse do paciente em mergulhar nas questões mais profundas. Independente da frequência, o ritmo estabelecido pelas sessões de análise, é de extrema importância para organizar fora (na agenda) questões ainda não organizadas dentro (internamente). Ao atribuir este ritmo, é possível seguir navegando em mares mais calmos e a exploração do território inconsciente, segue.
Psicanálise online funciona? Parte 3: Novas possibilidades

Parte 3 : Diante deste novo método do online, será que podemos considerar as partes “boas”? A principal delas, para mim, foi a possibilidade do trabalho continuar, não precisando interromper, mas é claro, se adaptar. De acordo com minha experiência, acredito que uma das vantagens do online é a facilidade de acesso, ou seja, uma maior mobilidade e flexibilidade para manter as sessões na agenda dos pacientes e também dos profissionais, em meio aos demais compromissos. Basta considerarmos as dificuldades de locomoção em São Paulo, principalmente o trânsito, ou até mesmo a possibilidade de fazer as sessões com um profissional que mudou de endereço ou foi indicado mas, a princípio, não seria uma opção acessível. Através do método online, tais profissionais se tornam acessíveis, os horários podem se tornar mais flexíveis e, os locais em que os pacientes podem se conectar com seus psicanalistas se diversificam, por exemplo: acessam de casa, em uma sala privada no trabalho, ou até mesmo em uma viagem ou outra. Acredito que mantendo a privacidade, vários formatos caberiam aqui. Quando no modelo presencial, os horários precisam estar mais “amarrados”, corresponder a uma logística que permita chegar naquele horário e local, considerando o trânsito e outros compromissos que venham antes ou depois da sessão, no online, é mais fácil de “encaixar”. Nesse sentido, o método online naturalmente oferece uma flexibilidade maior que pode ser bem utilizada por aqueles que querem se manter em análise mesmo em meio a mudanças de horário, de rotina e, agora principalmente, em meio a pandemia e o isolamento social. Vale lembrar que, para considerar estas opções mais flexíveis como “boas”/”positivas”, é importante que o vínculo estabelecido pela dupla, paciente e psicanalista, seja positivo, assim, o paciente se sente seguro e confiante para enfrentar estas adaptações e até mesmo, propor outras que sejam mais confortáveis para ele. Através de uma postura mais receptiva às mudanças, as novas experiências se tornam aprendizados importantes que enriquecem o repertório de ambos. Nota: No próximo e último texto vou abordar a contrapartida, os medos que podem permear o método online e a conclusão desta série de textos.