Quanto rende uma unha?

Escrevi há pouco tempo sobre minha percepção das minhas unhas. Na ocasião, ficou muito claro para mim a relação narcísica que se estabelecia ali neste olhar, as unhas bem cuidadas por mim e das quais me orgulhava.O que foi muito interessante é que, passado esse momento contemplativo, egóico e feliz comigo mesma, acabei me inscrevendo em uma nova atividade, aprender a tocar um instrumento musical. Animada com a ideia, logo na primeira aula, o professor avaliou minha postura e se eu tinha condições de aprender este instrumento, logo, ele nota as tais unhas. Bem cuidadas, coloridas e longas – para além da ponta dos dedos.Então ele comenta:“Eu vi que você tem belas unhas, mas para tocar esse instrumento deve cortá-las rente aos dedos, você precisa da ponta dos dedos livre para segurar as cordas. Você está disposta a fazer isso? O quão vaidosa você é com essas unhas?”De prontidão e para minha surpresa respondo:“Sim, estou disposta, melhor ter as unhas curtas na carne e ter um novo conhecimento de tocar música do que exibir as unhas como estão mas sem poder tocar”Faço uma pausa reflexiva quando me dou conta do que disse a ele naquele momento, olhando para as unhas fico um pouco triste, lembro justamente do texto em que as enaltecia, sigo:“Mas posso continuar com lindas mãos e unhas coloridas, embora curtas, não é?”Dou uma risada para aliviar o clima e convencer-me que era uma boa solução, o professor responde:“Claro que sim! Ainda terá mãos delicadas e femininas”Achei muito importante ter notado o que pareceu um desapego tão fácil diante de algo que parecia recentemente conquistado, uma auto-estima enaltecida através das unhas. Talvez seja essa a questão, estamos sempre nesse movimento de conquistar e re-conquistar, perder e adquirir. Eu perdi as unhas longas, mas mantive o cuidado com elas e ganhei a possibilidade de tocar um instrumento. Essa experiência me faz pensar no processo de análise, ao menos no meu processo em curso, como fui aos poucos me “desapegando” de detalhes que me caracterizavam e pude adquirir novos, mais contemporâneos. Com essa mesma facilidade que me desfiz das unhas longas, também me desfiz de furos na orelha e os brincos que adornavam e um piercing no nariz. Assim, com naturalidade. De repente, me incomodaram a tal ponto de querer me desfazer deles e não mais mantê-los, antes não me via sem estes adereços, faziam parte de mim, se os perdesse, estaria descaracterizada por assim dizer. Mas agora penso em adquirir novos adereços, novas habilidades com sorte. Veremos